Coordenador da Escola de Futebol: “Sonhem, mas não sonhem pelos miúdos”

Agosto 24, 2017

Aos 33 anos, Luis Silva assume a coordenação da Escola de Futebol do Estoril Praia e do Futebol de 7 com um objectivo: formar homens e campeões. É esse o desígnio da formação do clube. Talvez por isso, o coordenador pede aos outros aquilo que exige a si próprio: paixão, paciência, persistência e dedicação. 

As escolas de futebol têm-se multiplicado um pouco por todo o país. Que escola é a nossa?

A nossa escola assenta em princípios dos quais não abdicamos, nomeadamente ao nível da formação dos técnicos. Todos os técnicos da Escola de Futebol do Estoril Praia apresentam uma das seguintes premissas: Licenciatura na área do treino desportivo, curso de futebol nível I, ou estar a frequentar a licenciatura em desporto. Outra das características da nossa escola é a forma como nos relacionamos com os atletas, tentando que seja uma relação quase familiar. Por exemplo, todos nos tratamos pelo nome, cumprimentamos sempre o treinador e os colegas no início e no final do treino e nomeamos o capitão do treino para que fique responsável por ajudar o treinador. São coisas como estas que ajudam a criar laços fortes entre todos.

Em relação aos pais, queremos um diálogo permanente, cordial e de confiança recíproca. O pai tem o direito de questionar o treinador e o treinador tem o de dever de responder, tudo dentro das regras da boa educação e respeito pelo espaço um do outro.

"O nosso treinador tem de ser persistente, paciente, apaixonado e mega dedicado" 

Qual é o perfil do treinador da Escola do Estoril Praia?

Costumo dizer que há várias formas de ir de Lisboa ou Porto. Ou seja, os treinadores podem ter diferentes perfis e todos eles serem perfis de sucesso face ao objectivo que definimos. Ainda assim, podemos enquadrar algumas das características que para nós são fundamentais: organização, competência, gosto pelo ensino, conhecimento técnico e pedagógico. O nosso treinador tem de ser persistente, paciente, apaixonado, mega dedicado e com capacidade para se afirmar constantemente como um exemplo. É assim que deve ser visto pelos jogadores, um exemplo a seguir.

Vivemos num tempo em que muita a gente acredita que tem um Cristiano Ronaldo lá em casa. Como é que se gere esse excesso de expectativas por parte de alguns pais?

Esta é uma das questões mais sensíveis do futebol de formação actual. Teríamos aqui conversa para uma nova entrevista. Mas vamos ser claros: Quem não gostaria de ter um Ronaldo na família? Todos nós gostaríamos. O ser humano por vezes tem dificuldade em separar o lado racional do lado emocional, principalmente no futebol. A paixão faz com que muitas vezes percamos alguma lucidez.

"Não sonhem pelos miúdos. Deixem as crianças ser crianças. O que tiver de acontecer acontecerá naturalmente"

O excesso de expectativas por parte de um encarregado de educação não me preocupa muito, confesso. É que se por ventura a criança não alcançar os “objectivos “ traçados pelo seu pai, terá de ser o pai a saber lidar com esse insucesso. O principal problema deste excesso de expectativas é quando isso é passado para a criança sob a forma de pressão resultadista, de desempenho individual e constante cobrança. Isso sim é algo que me deixa muito desgostoso. Essa pressão e cobrança constantes podem provocar o abandono precoce e um dia alguns pais vão ter de ouvir uma frase como esta…"Pai desculpa não quero mais jogar futebol…prefiro fazer surf”.

Costumo dizer a alguns pais mais fervorosos: Sonhem à vontade, não pagam impostos por isso, mas por favor não passem isso aos miúdos, não lhes passem os vossos desejos que muitas vezes nem são os deles. Não sonhem pelos miúdos. Deixem as crianças ser crianças. O que tiver de acontecer acontecerá naturalmente.

No ano passado tivemos cerca de 300 crianças. Temos capacidade para fazer crescer a Escola já esta época?

Existe sempre margem para melhorar. A nossa escola tem aumentado substancialmente o número de novos alunos, bem como a taxa de renovação ao longo dos últimos anos. Para terem noção, estes 300 alunos tinham os seguintes horários: de segunda a quinta das 17h45 às 19h ,terça e sexta das 19h15 às 20h30 e aos sábados às 10h. Tínhamos turmas completamente cheias, inclusivamente com algumas inscrições em lista de espera. Uma das medidas que tomámos para a nova época foi a criação de mais horários durante a semana.

"A proximidade e a afectividade fazem parte do nosso o ADN. As crianças sentem-se especiais e nós também"

Quais são esses horários?

Este ano existirão dois horários disponíveis: de segunda a sexta das 17h às 18h e das 18h às 19h. Se se justificar estamos também preparados para abrir a turma das 19h às 20h. Iremos manter o funcionamento aos sábados das 10h às 11h.

Este alargamento permite aos encarregados de educação terem uma maior flexibilidade, ou seja, não ficarem restringidos a apenas uma hora, o que por vezes condicionava a sua logística diária. Esta alteração vai permitir uma redução do número de alunos por turma, o que aumenta significativamente a capacidade de intervenção do técnico. Por outro lado, o aumento do número de turmas permite aos técnicos enquadrar os jogadores segundo o seu nível.

Como é que estes miúdos percebem logo na Escola que aqui ninguém é mais um?

Pela proximidade e afectividade que cultivamos entre nós. Esse é o ADN da nossa escola. Eles sentem-se especiais e nós também.


Comments

  1. Francisco Braga - Agosto 24, 2017 a 12:38 pm

    Excelente! Bem sei que não posso obrigar a nada, mas sonho com o dia em que vou inscrever o meu Duarte na Escolinha do Mágico. Bom trabalho Luis. Abraço

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