“Os nossos atletas não são números”

Maio 10, 2017

"Os nossos atletas não são números"

Os sorrisos não deixam dúvidas. Hugo Leal e Vítor Neves falam da Formação do Estoril Praia com um brilho nos olhos. Os dois responsáveis não escondem a ambição: querem os melhores jogadores e os melhores homens. Hoje são 600 os miúdos que vestem a camisola amarela e correm pelo Centro de Treino. São 15 equipas de competição e uma Academia. A Federação certifica a excelência e o mundo está atento. Há já quem faça milhares de quilómetros para vir treinar ao Estoril. Parece mentira? É magia.

O que é mudou no futebol de formação do clube nos últimos três anos?

Hugo Leal – Quando esta direcção assumiu funções o clube tinha perdido algum espaço no concelho como a grande referência que o Estoril Praia deve ser. Ou seja, tínhamos equipas aqui ao lado que conseguiam apresentar-se como nossas rivais quando antes isso era impensável. Os melhores jogadores do concelho têm de jogar no Estoril Praia. Já foi assim e vai voltar a ser. É por isso que melhorámos as infraestruturas, actualizámos procedimentos técnicos e estamos a renovar os perfis dos treinadores. Estamos a montar um futuro com algumas actualizações e é importante que toda a gente as acompanhe. Mas quero deixar uma palavra de agradecimento precisamente aos treinadores que passaram pelo clube ao longo destes anos. Foram eles que aguentaram o barco, muitas vezes quando a maré estava difícil. Obrigado a eles por isso.

Vítor Neves – É preciso não esquecer que estamos todos cá para formar cidadãos e não apenas atletas, porque as percentagens de jogadores que atingem o futebol profissional infelizmente são muito reduzidas. Daí a nossa aposta em formar homens capazes de se adaptar a uma sociedade que por vezes é cruel. Os pais sabem disso e temos feito um esforço no sentido de tornar cada vez mais eficaz a nossa relação com eles.

Como é o jogador “made in” Estoril Praia?

VN – Deve ser bom aluno, bom filho e bom atleta. É isto que nós procuramos. É um trabalho de equipa que passa muito pela relação com os pais, porque o nosso foco principal não é formar craques, mas formar homens em todos os campos. Queremos que todos eles, um dia, jogadores profissionais ou cidadãos, se orgulhem de ter passado pelo Estoril Praia e aprendido alguma coisa.

HL – Quando nós temos 20 jogadores numa equipa e outros clubes da região têm 60, damos sinais claros de que o nosso objectivo é olhar à qualidade e à individualidade. Não há duas crianças iguais, como não há dois atletas iguais. Aqui, cada um é um. Eles não são números. Cada atleta nosso não é mais um. Se assim não fosse, teríamos 50 ou 60 atletas num escalão sabendo que na época seguinte teríamos de dispensar 20 ou 30. Não gostamos de trabalhar assim. Gostamos que os nossos atletas continuem connosco.

Formar é ver para além do óbvio. É muito mais do que resultados”

E qual é o perfil do “treinador Estoril Praia”?

VN – Os nossos treinadores têm de ser pessoas capazes de perceber que o processo de formação começa na escola, passa por casa e completa-se no clube. É esta a base. Temos de distinguir o treinador da Academia [onde estão os jogadores mais novos] e o treinador da competição…

HL – Sim, são perfis diferentes. Na Academia, o treinador não tem de ser só um treinador actualizado com exercícios adaptados às idades, tem de ser um pedagogo adaptado à fase da vida destas crianças. Tem de ser alguém que saiba os princípios que estão na base da formação de um jogador “made in” Estoril Praia, mas que saiba transmitir isso de forma lúdica, porque os nossos pequenos atletas estão a aprender, mas também estão a divertir-se. Quando entramos no mundo da competição, que são grupos restritos e seleccionados, aí as coisas são diferentes. O nosso atleta até 12 anos, que joga no Futebol 7, tem tempos mínimos de jogo. À medida que vão crescendo, chegamos aos 13-14 anos e passamos à fase da especialização onde cada um começa a ganhar o seu espaço numa posição, ou zona de jogo. Nesse momento, o clube já não obriga os treinadores a cumprirem os tempos mínimos e começamos a assumir que a selecção é uma coisa natural no futebol. Nessa fase, temos de ter um treinador que não olhe para os seus interesses pessoais e seja capaz de ver para além do momento. Há atletas nessas idades que não se conseguem impor, por exemplo por falta de estrutura física, mas que têm um enorme talento e que representam uma perspectiva de rendimento para futuro. Esses atletas têm de ter o seu espaço e um cuidado especial. É fácil um treinador ser selectivo e escolher os jogadores que rendem mais naquele momento, mas se essa fosse a lógica a seguir não estaríamos a falar de um clube de formação. Formar é olhar para o atleta que não se impõe nos Iniciados A, mas que tem um talento que se for acompanhado, trabalhado, chega aos Juniores e impõe-se. Não quero um treinador que olhe apenas para o resultado do momento para sua satisfação pessoal. Formar é muito mais do que isso.

Estão dispostos a sacrificar os resultados em prol dessa lógica?

VN – Estamos. Quando assumimos que até aos infantis todos os miúdos têm de jogar uma quantidade mínima de minutos, ou quando pedimos a um treinador que seja capaz de perceber que o talento pode estar escondido num corpo mais frágil aos 13 anos, estamos a dizer isso mesmo.

HL – Tivemos um bom exemplo disso há dois anos quando perdemos categoria nos iniciados de primeiro ano. Eles jogavam no campeonato de honra e nós não fomos buscar atletas mais velhos para ajudar porque sabíamos que estávamos a prepará-los para o futuro. Portanto, hoje a equipa que não está na divisão que podia estar, mas isso não nos preocupa porque estamos a ver coisas boas a acontecer amanhã. Formar é ver para além do óbvio.

 “Temos de chegar primeiro do que os outros no reconhecimento do talento”

Estás a dizer que não acreditas em fábricas de craques?

HL – Estou. Não existem fábricas de produção de craques em série. Não. Em nenhum canto do mundo existe uma escola que possa dizer que é uma fábrica de craques. Numa fábrica existe cadência e volume. No futebol as coisas não são bem assim. Nem Sporting, nem Benfica, por exemplo, estão totalmente satisfeitos com o número de atletas que conseguem formar para o futebol profissional. Certamente que gostariam de colocar mais atletas no mercado. O futebol é cada vez mais selectivo.

Qual é o balanço que se pode fazer desta primeira época da equipa de futebol feminino na Primeira Liga?

VN- Fizemos um esforço muito grande em termos financeiros, logísticos e nas mais diversas áreas para ter esta equipa a competir. Ficámos com oito atletas e tivemos que ser capazes de captar o interesse de novas atletas sem ter muito para lhes dar. A verdade é que as elas confiaram na nossa política de verdade. Quando se começou o projecto no ano passado, e nós estávamos no Campeonato de Promoção, fomos vencedores da Taça de Promoção. Conseguimos esse feito com a boa vontade das atletas e com muita dedicação de toda a gente que acreditou neste projecto.

HL – Invertemos a lógica de funcionamento do futebol feminino onde as atletas se unem ao treinado e vão para os clubes porque as amigas estão lá. Quisemos mudar o paradigma e pedimos-lhes que acreditassem no nosso projecto e elas acreditaram. Os objectivos eram claros: a permanência, consolidar o Estoril Praia na primeira Liga e apostar em jovens atletas. Até agora tem batido tudo certo.

“Vamos apostar na área de acompanhamento psicológico dos nossos atletas”

E como vão ser os próximos três anos?

VN – Nós já conseguimos criar a figura dos prospectores. Vamos ter gente conhecedora a ver os jogos e a identificar talentos. A ideia é que os jogadores talentosos do concelho não nos fujam. Os melhores da nossa terra têm de jogar aqui. O Estoril Praia tem de ser o clube de referência no concelho.

HL – Vamos conseguir isso com os melhores treinadores, com os melhores programas, com as melhores condições e com as melhores das vontades. Temos de chegar primeiro do que os outros no reconhecimento do talento, daí a equipa de prospectores. Vamos apostar na área de acompanhamento psicológico dos nossos atletas, com um melhor controlo do aproveitamento escolar, com diagnóstico e acompanhamento de casos que mereçam atenção especial. Nessa área vamos dar ferramentas aos nossos técnicos para que eles possam estar melhor preparados para seguir os atletas.

“Temos de voltar a um processo de integração dos atletas da formação no plantel sénior”

- Mas a estrutura ainda é pequena. Como se consegue tanta mudança?

VN - Não é vergonha nenhuma dizer que não temos a estrutura que outros têm. Com aquilo que temos fazemos muito. Não nos podemos comparar a outros, mas os recursos humanos que temos a trabalhar são de facto eficientes e merecem todo o nosso reconhecimento.

HL – A verdade é que ainda nos falta algumas coisas. Por exemplo, quando olhamos para os jogadores profissionais que passaram pelo Estoril Praia, percebemos que tiveram de sair do clube para chegar ao topo. Temos de ser capazes de evitar isso, optimizando a nossa relação com a SAD. Temos de voltar a um processo de integração dos atletas da formação no plantel sénior. Isso já aconteceu, teve uma pausa, e voltou agora fruto da boa relação e de um plano comum que temos com a SAD. Trabalhamos todos os dias para que os nossos atletas possam sonhar com o dia em que vestem a camisola da equipa profissional.

- Mas esse trabalho está reconhecido, ou pelo menos certificado…

HL - Somos um dos 10 clubes em Portugal certificados pela Federação Portuguesa de Futebol como entidade formadora. É um motivo de orgulho porque há muitos clubes com a dimensão do Estoril Praia que não conseguiram esta certificação. Foi um processo que nos permitiu crescer, em particular porque as coisas passaram a estar protocoladas, coisas que já fazíamos bem passaram a estar registadas e organizadas da forma como devem estar. Foi um processo superado, mas é contínuo e rigoroso. A ideia é ir melhorando sempre, aproximando-nos da excelência.

 “Têm passado por aqui jovens de todo o mundo. A marca Estoril Praia começa a ser reconhecida lá fora”

- Aproximando-nos do resto do mundo do futebol também, ou ainda não?

HL - Também. Aliás, o clube criou o Estoril Praia Elites Program. A ideia é permitir a atletas de outros países terem quase como um Erasmus desportivo num país com bom clima, boa comida óptimos treinadores e alta qualidade do treino. Têm passado por aqui jovens de todo o mundo. Tivemos já russos, peruanos, em Junho chegam 20 indianos, em Julho canadianos, americanos e depois colombianos. Estes jovens que passam por aqui não têm só uma experiência de aperfeiçoamento técnico a nível desportivo, experimentam uma realidade cultural diferente e garantimos também a questão continuidade do plano de estudos. A marca Estoril Praia começa a ser reconhecida lá fora.

 


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