Veio à procura da ilha e encontrou o clube do coração

Maio 30, 2017

O homem pediu a palavra para dizer ao que vinha. A sala calou-se como nos calamos sempre perante o desconhecido. “Vim de Bissau para assistir a esta Assembleia Geral. Este é o meu clube. Quando gostamos temos de mostrar que gostamos”. Às vezes é tão simples. A sala arrepiou-se num misto de estranheza e emoção.

Idrissa Camará passou a meninice a ouvir o tio contar as aventuras dos clubes que davam na telefonia. “Lembro-me que falava do CUF, do Boavista, do Barreirense e o tal Estoril da Praia”. Ficou-lhe o encanto e a fantasia desses amarelos que jogavam “numa Ilha lá de Portugal”, pensava ele. Praia é coisa de Ilha. E os homens de amarelo teriam um campo bonito no centro, com vista para o mar, imaginava Idrissa enquanto aconchegava pedra e cimento, mais pedra e mais cimento. Foi peso a mais.

Um problema na coluna forçou uma viagem a Portugal em 2014. Tinha chegado a hora de conhecer a Ilha do Estoril e os amarelos do campo com vista para o mar. Quando aterrou em  Lisboa quis saber a melhor forma de lá chegar. “Disseram-me que podia ir de comboio e não quis acreditar”, recorda. Afinal, o “Estoril da Praia” não vivia numa ilha, estava ali, a 20 minutos de caminho junto ao rio, depois o mar.

Chovia a sério no dia em que Idrissa decidiu reencontrar as memórias do tio. Apanhou o comboio no Cais do Sodré e saiu no Estoril. Foi da estação até ao António Coimbra da Mota a perguntar se estava longe “do campo e do escritório” onde alguém lhe autenticaria o sonho num pedaço de plástico. Chegou ensopado. Conheceu o “Ricardo do escritório”, visitou o campo, recordou a telefonia do tio e levou um galhardete oferecido que ainda hoje embala o sono do seu mais novo, lá longe, onde de tudo o que brota da terra parece magia. Idrissa Camará fez-se sócio nesse dia, mas não quis voltar a Bissau sem o cartão. Adiou o regresso e só entrou no avião com o plástico amarelo e azul que o faria diferente na terra de iguais.

Quando chegou a Bissau a família não quis acreditar. “Disse-lhes que nunca mais seria do Benfica. O meu clube é o Estoril Praia”. Os amarelos da ilha imaginária onde até se pode ir de comboio.

Texto: Filipe Mendonça


Comments

  1. Francisco Braga - Maio 30, 2017 a 9:52 am

    Maravilha! Grande História! Obrigado Idrissa! Saudações Estorilistas

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    • José António Seguro - Junho 2, 2017 a 9:03 pm

      História bonita,, que me comoveu. Um grande abraço e um obrigado por esta aventura inesquecível. Idrissa um Estorilista de longe.

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